Concurso Nacional Plano Piloto Brasília

Brasília/DF
1957
 
Projeto

EQUIPE ARQUITETURA:

 

Henrique Mindlin Associados S/A e Giancarlo Palanti & Arquitetos Associados

“Ao plano piloto de Brasília caberia ‘apenas  a esquematização de um rumo e de uma tendência’. Do confronto e da síntese dos vários planos poderia ‘surgir uma direção para estudos posteriores, de um plano diretor , entrosado com um plano regional’ . Nada disso, porém teria sentido prático sem a proteção do plano contra interesses imediatistas, a ser garantida por meio de ‘uma legislação apropriada, concretizando inovações e princípios ainda não experimentados em nosso meio’. Mesmo assim, um bom plano e sua aplicação sistemática não seriam, por si sós, capazes de assegurar o êxito do empreendimento, sem uma política geral de desenvolvimento do país que desse à nova capital sentido econômico, promovendo o efetivo progresso do interior brasileiro.

Na fase do concurso, portanto, a solução deveria permanecer ‘sem digressões acadêmicas ou divagações meramente teóricas [...] despretensiosamente’, no campo da esquematização preliminar, ou seja, ‘da própria realidade dos fatos’. Deveria apenas ‘sugerir, na área escolhida, uma disposição adequada e economicamente viável de elementos principais da cidade’. A tanto estava limitado o trabalho apresentado pela equipe.

[...]

Foi considerada uma proporção alta de funcionários públicos em contraposição a uma pequena parcela da população envolvida com a produção industrial, dado o caráter que se pretendia das à nova capital. Esse mesmo caráter levava a supor ’uma ponderável população itinerante, de vários milhares de visitantes diários exigindo acomodação satisfatória em hotéis e hospedarias’. A  par dessa avaliação da composição populacional, acrescentavam que, a longo prazo, a cidade deveria ultrapassar a população inicialmente prevista, com a progressiva concentração da administração federal na nova capital e com previsível aumento da envergadura do governo da República, na medida do próprio crescimento da população brasileira.

 

PRINCÍPIOS

Diante das considerações acima, definiram que o plano a ser desenvolvido para Brasília deveria contemplar ‘uma razoável possibilidade de expansão além do total máximo de 500 mil habitantes indicados aos concorrentes’ evitando-se desse modo que a solução futura da acomodação do provável excedente populacional resultasse na criação de ‘cidades-dormitório satélites, acarretando distâncias excessivas entre o local de habitação e trabalho’.

Definiram também que a cidade deveria ser ‘imersa em áreas verdes, humana e agradável, dotada de vias de comunicação claramente sistematizadas’, com todos os setores necessários organizados por uma estrutura lógica, porém adequada à conformação do terreno.

[...]

Sobre a organização geral da cidade, estabelecia-se que fossem evitados os esquemas geométricos rígidos, os quais trariam um ‘excessivo tecnicismo’, defendendo-se que ‘as soluções reais’ deveriam ser ‘baseadas numa adaptação das teorias à real natureza do sítio’ onde a cidade seria implantada.

 

PLANO PILOTO

O traçado básico da cidade foi definido como decorrência da conformação espraiada dos braços do lado e da localização aproximada das estradas de ferro e de rodagem de acesso à nova capital. Foi organizado, conforma Palanti, em dois eixos principais: ‘o eixo das atividades públicas, administrativas e de governo e o eixo da vida particular, cruzando-se ortogonalmente no centro comercial e recreativo da cidade’.

O primeiro eixo seria desenvolvido no sentido leste-oeste, desde a residência presidencial, previamente projetada e implantada pela Novacap, até o capitólio, no ponto culminante da topografia, onde foram localizados os três poderes. No seu curso foram previstos os demais setores dos ministérios e dos órgãos da administração federal, do outro lado do cruzamento dói localizado o centro cívico e comercial  e, aproximando-se da residência presidencial, foi projetado o setor das embaixadas e legações. O segundo eixo, estendendo-se na direção norte-sul, ordenou, nos dois sentidos, os setores residenciais. Os eixos ao serem acomodados às condições do sítio, resultaram curvilíneos, ganhando as razões práticas e estéticas por evitarem as inclinações inadequadas e a monotonia.

O capitólio seria separado da rodovia e da ferrovia por um extenso parque florestal. Do outro lado dessas vias foi situada, com um respectivo setor residencial, a zona industrial, destinada para pequenas e médias indústrias originadas pelas necessidades da capital. Essa localização, segundo Palanti, seria favorável não apenas pela proximidade com as vias interurbanas, mas também em função dos vento dominantes leste-oeste, os quais protegeriam a cidade da poluição industrial. Da zona industrial partiria um eixo leste-oeste secundário dirigido ao centro cívico e comercial, constituindo o principal acesso à cidade. Junto ao trevo rodoviário ocasionado pelo cruzamento do eixo secundário com a rodovia, foram situadas as estações ferroviária e rodoviária. Nesse arranjo seria facilitado o abastecimento tanto da cidade como do próprio setor industrial.

Fora dos setores que constituíram o núcleo urbanizado propriamente dito foram previstos outros estabelecimentos.

Na península norte, uma área especialmente favorável, foram articuladas a zona dos centros hospitalares, no seu extremo, e a cidade universitária, na sua porção intermediária. A zona hospitalar teria o benefício de uma localização afastada, tranquila e saudável, onde os ventos dominantes a protegeriam da poluição originada pela cidade, estando garantida, porém, a possibilidade de acesso rápido aos demais setores da capital. No trecho inicial da mesma península, já próximo do prolongamento do eixo norte, foi prevista ainda, a zona militar.

Na península sul, área igualmente privilegiada, foram projetados os centros esportivos, com estádio, o hipódromo, ginásios e o centro balneário, com os esportes náuticos. Ambos associados e suficientemente afastados do aeroporto, o qual foi proposto aproveitando-se a pista que já estava em construção.

Na periferia da cidade foram instalados dois cemitérios.

Em torno do conjunto, os arquitetos previram um cinturão verde, para que a cidade fosse delimitada e para impedir seu crescimento desordenado. Palanti acrescentava em seu manuscrito a previsão da exploração agrícola no restante do Distrito Federal, apoiada por pequenos centros satélites e uma rede viária para abastecimento fácil da capital.O conjunto da cidade conformaria ‘uma área total relativamente ampla’, com abundância de áreas verdes em torno dos diversos setores, as quais constituiriam margem suficiente para a eventual expansão da cidade acima do tamanho preestabelecido pelo edital do concurso. Para os arquitetos, no esquema por eles proposto, a reserva de espaço não representaria, entretanto, ‘nenhum ônus considerável no custo dos melhoramentos básicos, pois apenas afetaria em grau ponderável algumas das vias de comunicação dos eixos dos setores de habitação’."

 

BRAGA, Milton; O CONCURSO DE BRASÍLIA, Editora Cosac Naify, pág 86-99